sábado, 13 de novembro de 2010

DAN MITRIONE, o mestre da tortura

Pouquíssimas pessoas sabem quem foi Dan Mitrione, homenageado com o nome de uma rua em Belo Horizonte no início dos anos 1970. A homenagem, sabe-se agora, fez parte de um plano para mascarar a biografia do torturador ítalo-americano que a ditadura militar trouxe, num convênio com a CIA, para ministrar aulas de tortura aos policiais brasileiros. E ele veio justamente para a capital mineira. Os espancamentos de presos políticos, que já eram a prática com os presos comuns (e continuam), passaram à condição de “método científico” com a chegada do “mestre”. As aulas não eram somente sobre a contradição entre corpo e espírito, entre fidelidade e resistência, entre caráter e covardia. As aulas eram práticas. Mendigos e presos comuns eram seviciados em salas de aulas para mostrar aos alunos os pontos mais vulneráveis do corpo, as técnicas mais eficientes, os instrumentos mais adequados, o limite depois do qual o risco de matar o preso era iminente.

Estes tempos tristes estão sendo esquecidos e o hediondo crime de tortura, embora imprescritível e inafiançável, pode ser anistiado desde que o STF assim o entenda. As coligações políticas entre defensores da tortura (e até torturadores remanescentes) e antigos lutadores pela liberdade e pela justiça começam a ficar comuns para a conquista ou manutenção do poder. Esta volúpia pelo poder, que despreza a ética e os princípios, terá como primeira vítima a liberdade. Sempre foi assim em todas as autocracias. Quando nos esquecemos dos horrores da ditadura, quando eles vão ficando mais distantes no tempo é que o pêndulo começa a se movimentar na direção do autoritarismo. A experiência dos que sofreram é confundida com atraso em um mundo que caminha cada vez mais rapidamente em direção a uma “pós modernidade”, depois da qual pode restar apenas um planeta morto. Os que foram vítimas dos ensinamentos de Dan Mitrione, aqui e no Uruguai, sabem que liberdade (“essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda” Cecília Meireles) é mais importante que o consumismo, o resultado de bolsas de valores, a cotação de moedas estrangeiras, o humor do mercado.

Dan Mitrione foi ensinar tortura no Uruguai. Os Tupamaros o prenderam para trocá-lo por presos políticos da ditadura de lá. Ante a recusa dos militares uruguaios, foi justiçado. O nome de rua em Belo Horizonte foi a pedido dos americanos que queriam transformar o torturador em herói. Não conseguiram.

Em 1983, por iniciativa de Artur Viana e Helena Greco, vereadores na época, o nome da rua foi mudado para José Carlos Mata-Machado, jovem lutador pela liberdade, assassinado sob tortura (talvez com as técnicas ensinadas por Mitrione) nos porões da ditadura em Pernambuco. Era filho do inesquecível Prof. Edgar Mata-Machado. Belo Horizonte foi redimida e ficou mais limpa. A inauguração da nova placa foi uma festa. Eu estava lá. E não me esqueço.

Texto de Antônio de Faria Lopes, postado no site de Fernando Massote
http://massote.pro.br/2010/06/dan-mitrione-antonio-de-faria-lopes/

Fernando Massote iniciou os seus estudos de filosofia e política na Universidade Católica de Louvain (Bélgica) e os terminou, com o curso de doutorado, na Universidade de Urbino (Itália). É professor aposentado do Departamento de Ciência Política da UFMG e autor do livro “História pela Metade – Cenários de Política Contemporânea”.

26 comentários:

  1. O Filme Estado de Sítio, de Costa Gravas, de 1973, narra esse episódio, embora o protagonista se chame Philip Michael Santore (interpretado pelo ator Ives Montand), trata-se na verdade desse senhor Dan Mitrione, professor de repressão, e fala da passagem dele também pelo Brasil para implantar a tal “escola de tortura”.

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    1. A esquerda comunista criou o mito Dan Mitrione. Para saber a verdade, procurei e busco ainda alguma foto, algum vídeo, algum documento, bilhete, carta, depoimento oficial, qualquer coisa que testifique materialmente a atividade de Mitrione. Nunca achei nada. Só conversa fiada desse bando de terroristas e seus simpatizantes. Inventaram algo contra alguém e isso veio a lhe custar a vida, morto que foi por terroristas tupamaros. Desafio qualquer um a exibir aqui na Internet provas materiais concretas da atividade de Dan Mitrione.

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  2. Como sempre, o famigerado estilo americano, promovendo a dor, disfarçado de bom mocinho. Bom mocinho, o agente que veio ao Brasil para ajudar a ditadura. Bom mocinho a CIA que ensina métodos, técnicas a políciais de como torturar com eficiência. Bom mocinho que vira nome de rua.
    Mestre da tortura! Que loucura habita o cérebro de uma pessoa como Dan Mitrione para se prestar a uma "profissão" como esta.

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    1. Você viu alguma coisa, Dona Cida? Tem provas aí? Conheceu Dan Mitrione? Não se jogue de cabeça em coisas sem fundamento.

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  3. Conhecia mais ou menos sobre a passagem desse indivíduo aqui pelo Brasil na época da ditadura. Mas após essa postagem de vocês vou pesquisar mais sobre esse profissional carnificeiro indigno e desprezível.
    Cida, o que esse sujeito tinha no cérebro era o equivalente ao que até um urubu rejeita como alimento, o máximo da decomposição orgânica, dejetos indesejáveis. Disso era formado sua massa encefálica, de detritos não aproveitáveis.

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    1. Mario, você está adjetivando alguém sem provas, levado apenas pelo argumento falso e raivoso dessa esquerda comunista inventiva. Vá procurar as provas primeiro e adjetive depois, segundo seus recursos intelectuais.

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  4. Que episódio repugnante da nossa história.

    Vi, quando estive em Recife, essa escultura que vocês postaram. Foi muito difícil olhar para ela, pois meus olhos marejaram. Ao mesmo tempo percebi que ela deveria estar ali para nunca esquecermos de sua real acepção. Ao redor dela acontecem muitos movimentos. Pessoas se reúnem em protesto contra várias questões, como preconceito social e racial, homofobia, tirania.
    Junto à escultura fiz uma revisita ao passado com ações simultâneas de meu presente.
    Parabéns galera pelas postagens.

    LEANDRA

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  5. Aí, Mario. Concordo plenamente com vc. Bola na rede.
    Esse cara merecia era nome de fossa de excremento, não de rua. Ser vil e desprezível. Servil de um sistema insolente.

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  6. Oia o blog trocou de roupinha que bonitinho. hihihihihi

    Gente querida mais uma vez obrigada por tantas informaçoes. Definitivamente reconheço que nao sei nada da historia de meu país ou do mundo, vou me aperfeiçoando conforme da, um assunto me leva a uma pesquisa maior e assim vou conhecendo o passado do lugar onde vivo e ate passo a entender melhor meu presente.

    Vou procurar na locadora esse filme (Estado de Sítio) que a Ana Maria citou. Fiquei curiosa para saber mais dessa historia tao cruel.

    Beijos

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  7. A tortura deu lugar às descobertas mecânicas mais engenhosas, cuja produção dá trabalho a uma imensidade de honestos artesãos.
    Karl Marx

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  8. Que louco!!! Tomei conhecimento desse blog agora há pouco pelo facebook, é muito bom!!!!!!! Ainda estou um pouco tonta com as postagens, mas prometo que serei leitora e seguidora assídua. Parabéns!!!!! Melinda

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  9. A tortura praticada durante o período do regime militar serviu para semear sofrimento e mostrar o quanto esses que queriam a posse do Brasil eram cruéis e principalmente despreparados para governar um país com sabedoria e atitudes para engrandecer uma nação e projetá-la ao mundo como um lugar próspero e cobiçado. Se na sua engenhosa propaganda o regime militar salvou o Brasil de "terroristas comunistas" e nos seus podres porões garantiu uma sobrevida de 20 anos de um estado ilegítimo, mantido sob a força bruta, aspirando o silêncio dos cidadãos, não conseguiu... não conseguiu destituir das pessoas o anseio à liberdade de expressão.
    Beijos a todos.
    Ah... O Blog de cara nova ficou bem bonito mesmo. Parabéns.

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  10. Boa noite pessoal...
    Uma amiga minha me indicou esse blog, disse que é a minha cara... e não é que é mesmo.
    O assunto ditadura militar no Brasil me interessa muito. Estou pesquisando esse assunto para um trabalho e acredito que estar em contato com vocês será fundamental aos meus estudos.
    Sobre esse tópico do Dan Mitrione: Cada vez mais percebo que a ditadura se utilizava do que havia de mais repugnante no mundo para exercer e manter o engodo que ela representava. Pena que esse engodo fez tantas vítimas e fez chorar tantas famílias.
    Abraços

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    1. Dona Isadora, se a senhora conheceu Dan Mitrione ou tem alguma prova de seu trabalho no Brasil, poste aqui. Até agora sobre ele ninguém provou nada.

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  11. Credo! Cada coisa horrível o ser humano é capaz de fazer ao seu semelhante em nome do poder. E pensar que tortura ainda existe, de maneira velada... mas existe. Lembram dos acontecimentos na prisão de Abu Ghraib, parte do horripilante episódio da invasão norte-americana ao Iraque?
    Pois é! Esses episódios, entre outros, marcam não só no século XX mas persistem no XXI.
    Precisamos agir muito contra esse estado de coisa. Tortura jamais.

    http://tortura.wordpress.com/category/tortura-no-iraque/

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  12. Tudo o que aconteceu nesses 20 anos de ditadura no Brasil é muito difícil de engolir. Mas a simplicidade dessa letra de música que posto a seguir representa como penso e como devo atuar para esse passado ficar sempre morto, enterrado e não resuscitar nem com reza brava.

    Desesperar jamais
    Aprendemos muito nesses anos
    Afinal de contas não tem cabimento
    Entregar o jogo no primeiro tempo

    Nada de correr da raia
    Nada de morrer na praia
    Nada! Nada! Nada de esquecer

    No balanço de perdas e danos
    Já tivemos muitos desenganos
    Já tivemos muito que chorar
    Mas agora, acho que chegou a hora
    De fazer valer o dito popular
    Desesperar jamais
    Cutucou por baixo, o de cima cai
    Desesperar jamais
    Cutucou com jeito, não levanta mais

    Desesperar Jamais
    Ivan Lins / Vitor Martins

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  13. É lamentável saber que ainda existe tortura no Brasil, e mais lamentável ainda, saber que existe fome e ignorância.

    Outro dia vi um episódio na TV, a madrasta queimou os pés e as mãos do enteado por desobediência, o pai do menino foi lá e bateu na filha dela, disse: "pra ela saber o quanto dói bater no filho da gente".

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  14. Será possível um mundo sem violência física?
    A verbal parece impossível, né?

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  15. Pois é, amigo Anônimo...

    Esse tolo pai aplicou na menina o antigo sistema de penas pelo qual o autor de um delito devia sofrer castigo igual ao dano por ele causado: A Lei de Talião, cujos registros de sua existência foram encontrados no Código de Hamurabi, em 1780 A. C., no reino da Babilônia.

    A crueldade persiste até nossos dias e as vezes extrapola tanto como nesse tolo pai que achou que fazendo mal à criancinha seria mais incisivo na sua retaliação.

    Loucos !!!

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  16. Danielle...

    Minhas atitudes e meus ideais são para um mundo mais pacífico, mas sei que jamais viverei esse momento, portanto deixo minhas ações para as futuras gerações saboreá-las. Espero fervorosamente que se deleitem nelas.

    Abração

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  17. cheguei agora e estou gostando
    valeu galera pela iniciativa
    estarei na area sempre que der
    força e boa sorte nesse trabalho

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  18. TUDO A VER
    VOCES SAO 10
    BJS

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  19. Esse assunto me faz pensar muito no q aconteceu a humanidade, o q aconteceu na trajetoria de evolucao do bicho homem q justifique a existencia de seres assim tao estupidos e desprovidos da essencia de proteger sua matilha, seu bando, seu galinheiro, enfim.

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  20. É mesmo, GENTE, o que aconteceu? Que bicho estranho nos mordeu para tratarmos nosso semelhante como jamais gostaríamos de ser tratados? Fiz a colocação na 1ª pessoa do plural só para não parecer um alienígena. Mas não faço parte deste nós de gente que provoca dor, não mesmo... Aliás isso me repugna. Me faz ter vergonha de ser da mesma espécie. Desculpem-me pelo desabafo...

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  21. Marcia... Eu também não faço parte deste nós. Faço de seu desabafo meu !!!
    Bj

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  22. Caros companheiros ( as)
    Parabéns pelo blog. Está excelente. Resgatar a história é de fundamental importancia principalmennte para as futuras gerações. " QUEM ESQUECE O PASSADO ESTÁ CONDENADO A REPETI-LO" ( Leon Bloy). Por outro lado temos que honrar os nossos companheiros assassinados e desaparecidos pela ditadura miltar.
    Quando fui vereador em Belo Horizonte (1993/2004) apresentei projetos que depois de sancionados viraram leis dando nomes de ruas para todos os mineiros já falecidos que lutaram contra a ditadura militar. Numa iniciativa inédita e pioneira escrevemos um livro RUA VIVA cuja a primeira edição foi lançada em 94 e a segunda em 2004. São mais de 160 nomes. Homenageamos , resgatamos e gravamos na história da nossa cidade , estado e país.
    Sugiro que incentive outras cidades a tomarem tal iniciativa. Muitas deram nomes de ruas mas não escreveram .
    Abraços e felicidades
    BETINHO DUARTE

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