quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
domingo, 19 de dezembro de 2010
Ainda guardo renitente um velho cravo para mim...
Sei que estás em festa, páFico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim
(1975 - Tanto Mar - Chico Buarque - Letra original, escrita no tempo presente, vetada pela censura, gravação editada apenas em Portugal)
__________________________________________________________________
Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim
(1978 - Segunda versão, escrita no tempo passado)
___________________________________________________________________________
Tanto Mar figura uma carta escrita por um português no Brasil para um amigo português em Portugal. Ambos os países sob o regime ditatorial.
Em 25 de Abril de 1974, o regime português foi derrubado por uma revolução popular que ficou conhecida como Revolução dos Cravos. Há várias histórias para o uso do cravo como símbolo da revolução. Umas delas é que, ao amanhecer, uma florista levava cravos para decorar um hotel quando foi surpreendida por um soldado, solidário à revolução, que colocou um de seus cravos na ponta da espingarda, e em seguida todos os outros fizeram o mesmo.
Por isso, na letra, Chico fala da primavera, dos cravos, lá, em Portugal (sei que estás em festa, pá, fico contente). Porém cá, no Brasil, ele está doente pela ditadura ainda latente.
Na segunda versão da letra, 1978, há uma mágoa referência ao término da Revolução, visto que em 25 de novembro de 1975, um golpe militar pôs fim ao Processo Revolucionário em Curso: já murcharam tua festa, pá. Mas não com o ânimo revolucionário: mas certamente esqueceram uma semente nalgum canto de jardim.
Para quem não sabe: A expressão "pá" no final das frases, é uma corruptela de "rapaz", em Portugal.
(fontes: Othon César / www.chicobuarque.com.br)
Liberdade artística violada pela Vara de Família de São Paulo
Elaine César, perde guarda do filho por trabalhar no Teatro Oficina, classificado como “pornográfico”
Uma carta de José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, notável criador do Teatro Oficina e artista premiado nacionalmente e internacionalmente, denuncia que a diretora de vídeo do grupo, Elaine César, perdeu a guarda do filho, acusada de participar de um “teatro pornográfico”.
Uma fonte afirmou que o ato foi tão violento que ela foi parar na UTI, a poucos dias da estreia da peça, em São Paulo, "Dionisíacas 2010 Sampã" - festival que reúne quatro peças do Oficina, de sexta-feira (17) a segunda-feira (20).
“Casos violentos como este só se comparam à censura durante o regime militar e mostram que os juízes e os procedimentos das Varas de Infância são da idade média”, afirmou a fonte.
José Celso Martinez denuncia, em um dos trechos: “Porque um ex-marido ciumento, totalmente perturbado, teve acolhidos por autoridades da Vara da Família, para esta praticar uma ação absolutamente anti-democrática, para não dizer nazista, todos seus pedidos mais absurdos de ex-marido ególatra, doente, de arrancar o filho do convívio da mãe, acusando Elaine de trabalhar num “teatro pornográfico” e para lá levar o filho: o Teatro Oficina. Fez oficiais de justiça sequestrarem os HD’s deste Teatro, com um texto de uma obscenidade rara, para procurar cenas de pedofilia e práticas obscenas que Elaine e seu atual marido, o ator Fred Stefen, do Teatro Oficina, teriam cometido com o filho de Elaine, o menino Theo.”
Leia no link abaixo, dedicatória a Elaine, carta do autor e cartas de Zé Celso ao desembargador responsável pelo caso:
http://www.consciencia.net/agencia/mulher-perde-guarda-do-filho-por-trabalhar-no-teatro-oficina-classificado-como-pornografico/
Uma carta de José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso, notável criador do Teatro Oficina e artista premiado nacionalmente e internacionalmente, denuncia que a diretora de vídeo do grupo, Elaine César, perdeu a guarda do filho, acusada de participar de um “teatro pornográfico”.Uma fonte afirmou que o ato foi tão violento que ela foi parar na UTI, a poucos dias da estreia da peça, em São Paulo, "Dionisíacas 2010 Sampã" - festival que reúne quatro peças do Oficina, de sexta-feira (17) a segunda-feira (20).
“Casos violentos como este só se comparam à censura durante o regime militar e mostram que os juízes e os procedimentos das Varas de Infância são da idade média”, afirmou a fonte.
José Celso Martinez denuncia, em um dos trechos: “Porque um ex-marido ciumento, totalmente perturbado, teve acolhidos por autoridades da Vara da Família, para esta praticar uma ação absolutamente anti-democrática, para não dizer nazista, todos seus pedidos mais absurdos de ex-marido ególatra, doente, de arrancar o filho do convívio da mãe, acusando Elaine de trabalhar num “teatro pornográfico” e para lá levar o filho: o Teatro Oficina. Fez oficiais de justiça sequestrarem os HD’s deste Teatro, com um texto de uma obscenidade rara, para procurar cenas de pedofilia e práticas obscenas que Elaine e seu atual marido, o ator Fred Stefen, do Teatro Oficina, teriam cometido com o filho de Elaine, o menino Theo.”
Leia no link abaixo, dedicatória a Elaine, carta do autor e cartas de Zé Celso ao desembargador responsável pelo caso:
http://www.consciencia.net/agencia/mulher-perde-guarda-do-filho-por-trabalhar-no-teatro-oficina-classificado-como-pornografico/
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Governo lança CD-ROM com memória da resistência à ditadura militar brasileira
Oito mil escolas públicas de ensino médio de todo o país irão receber do governo federal um CD-ROM com a história de 394 mortos e desaparecidos durante a ditadura militar brasileira (1964-1985). O trabalho, feito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com apoio do Ministério da Educação (MEC) e sob a encomenda da Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República, foi apresentado dia 10 de dezembro em Brasília.O CD-ROM foi elaborado a partir dos arquivos do projeto Direito à Memória e à Verdade da SDH e outros documentos. Além da biografia dos perseguidos políticos, o CD vai permitir aos professores e estudantes conhecer o contexto histórico e cultural do período com acesso à cerca de 4 mil fotografias e ilustrações, 300 vídeos e mais 300 canções que fizeram parte dos protestos e da resistência à ditadura.
“Essa juventude hoje não conhece os anos difíceis que o país passou”, disse o ministro da Educação, Fernando Haddad, no lançamento. Segundo ele, o CD-ROM “será festejado como um instrumento de transformação”. Para Haddad, há um efeito pedagógico e cívico na iniciativa. “Democracia se apropria com a cultura. Não é nata do ser humano”, disse ao enfatizar que os valores democráticos precisam ser ensinados.
O ministro Paulo Vannuchi enfatizou que o CD ROM é uma experiência “absolutamente pioneira” em projetos de memória. “Não lembro de ter ouvido falar em outro país”, disse. SDH e MEC também são parceiros na elaboração das diretrizes curriculares nacionais para direitos humanos.
O CD-ROM deverá virar um site a ser desenvolvido pela UFMG. O trabalho foi coordenado pela professora Heloisa Maria Murgel Starling do departamento de história da UFMG e contou com a participação de 15 estudantes de várias áreas, entre elas, história, direito e comunicação.
Para a professora, o projeto é uma “batalha ganha” na recuperação da memória da época da ditadura. “Ao abordar a cultura, o CD-ROM traz uma dimensão de esperança e dimensão lúdica. O conhecimento da história se dá não apenas pela fase dura e dramática, mas também pela enorme criatividade que existia no período.”
sábado, 11 de dezembro de 2010
Arlequins agradece !!!
Agradecemos a todos que nos deram força para a realização do ensaio aberto de fragmentos da peça Os Filhos da Dita que apresentamos hoje no Memorial da Resistência de São Paulo. Aos que lá foram nos assistir, nosso imenso carinho e nossos aplausos.
Evoé !!!
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
OS DESAPARECIDOS - poema de Affonso Romano de Sant’anna
De repente, naqueles dias, começaram
a desaparecer pessoas, estranhamente.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Ia-se colher a flor oferta
e se esvanecia.
Eclipsava-se entre um endereço e outro
ou no táxi que se ia.
Culpado ou não, sumia-se
ao regressar do escritório ou da orgia.
Entre um trago de conhaque
e um aceno de mão, o bebedor sumia.
Evaporava o pai
ao encontro da filha que não via.
Mães segurando filhos e compras,
gestantes com tricots ou grupos de estudantes
desapareciam.
Desapareciam amantes em pleno beijo
e médicos em meio à cirurgia.
Mecânicos se diluiam
- mal ligavam o tôrno do dia.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Desaparecia-se a olhos vistos
e não era miopia. Desaparecia-se
até a primeira vista. Bastava
que alguém visse um desaparecido
e o desaparecido desaparecia.
Desaparecia o mais conspícuo
e o mais obscuro sumia.
Até deputados e presidentes esvaneciam.
Sacerdotes, igualmente, levitando
iam, arefeitos, constatar no além,
como os pescadores partiam.
Desaparecia-se. Desaparecia-se muito
naqueles dias.
Os atores no palco
entre um gesto e outro, e os da platéia
enquanto riam.
Não, não era fácil ser poeta naqueles dias.
Porque os poetas, sobretudo
- desapareciam.
Se fosse ao tempo da Bíblia, eu diria
que carros de fogo arrebatavam os mais puros
em mística euforia. Não era. É ironia.
E os que estavam perto, em pânico, fingiam
que não viam. Se abstraíam.
Continuavam seu baralho a conversar demências
com o ausente, como se ele estivesse ali sorrindo
com suas roupas e dentes.
Em toda família à mesa havia
uma cadeira vazia, a qual se dirigiam.
Servia-se comida fria ao extinguido parente
e isto alimentava ficções
- nas salas e mentes
enquanto no palácio, remorsos vivos boiavam
- na sopa do presidente.
As flores olhando a cena, não compreendiam.
Indagavam dos pássaros, que emudeciam.
As janelas das casas, mal podiam crer
- no que viam.
As pedras, no entanto,
gravavam os nomes dos fantasmas
pois sabiam que quando chegasse a hora
por serem pedras, falariam.
O desaparecido é como um rio:
- se tem nascente, tem foz.
Se teve corpo, tem ou terá voz.
Não há verme que em sua fome
roa totalmente um nome. O nome
habita as vísceras da fera
Como a vítima corrói o algoz.
E surgiam sinais precisos
de que os desaparecidos, cansados
de desaparecerem vivos
iam aparecer mesmo mortos
florescendo com seus corpos
a primavera de ossos.
Brotavam troncos de árvores,
rios, insetos e nuvens em cujo porte se viam
vestígios dos que sumiam.
Os desaparecidos, enfim,
amadureciam sua morte.
Desponta um dia uma tíbia
na crosta fria dos dias
e no subsolo da história
- coberto por duras botas,
faz-se amarga arqueologia.
A natureza, como a história,
segrega memória e vida
e cedo ou tarde desova
a verdade sobre a aurora.
Não há cova funda
que sepulte
- a rasa covardia.
Não há túmulo que oculte
os frutos da rebeldia.
Cai um dia em desgraça
a mais torpe ditadura
quando os vivos saem à praça
e os mortos da sepultura.
Affonso Romano de Sant'anna
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Arlequins apresenta no Sábado Resistente: evento lembra o AI-5 e homenageia Bacuri
Revelações sobre a vida do comandante Bacuri mostram toda a fibra de um dos mais fortes e decididos resistentes.Peça de teatro mostra toda a barbárie do Ato Institucional n°5 - o AI-5, sobre nosso país.
O país não foi o mesmo depois da edição do Ato Institucional n° 5, que oficializou e escancarou a ditadura em nosso país. Civis passaram a ser julgados por tribunais de militares e a pena de morte passou a existir em tempos de paz. Não oficialmente, pois eles não tiveram a coragem de executar ninguém dentro de suas leis fascistas. Mas, na prática ela existia e atuava sem nenhum freio. Os órgãos de repressão e tortura assassinaram muitas pessoas.
Eduardo Collen Leite, o Comandante Bacuri, passou 106 dias nas mãos dos torturadores mais tenebrosos e nada informou para os carrascos. Nem mesmo seu nome ele confirmou.
O Sábado Resistente de dezembro homenageia esse herói brasileiro, que ousou desafiar a ditadura e não cedeu aos torturadores, protegeu seus companheiros e mostrou uma fibra nunca vista naqueles duros tempos de repressão política e de mortes de brasileiros e brasileiras.
PROGRAMAÇÃO
14h00 – Boas-Vindas
Kátia Felipini (Museóloga – coordenadora do Memorial da Resistência de São Paulo)
Coordenação – Ivan Seixas (Núcleo de Preservação da Memória Política do Fórum Permanente de ex-Presos e Perseguidos Políticos/SP)
14h15 – Homenagem ao Comandante Bacuri
Palestra com a jornalista Vanessa Gonçalves com revelações surpreendentes sobre a vida de Eduardo Leite
15h30 – Apresentação de fragmentos da peça "Os Filhos da Dita"
Grupo Teatral Arlequins (Direção: Sérgio Santiago - Elenco: Ana Maria Quintal e Camila Scudeler)
15h30 – Debate com a jornalista Vanessa Gonçalves e elenco da peça "Os Filhos da Dita"
SÁBADO RESISTENTE
Os "Sábados Resistentes", promovido pelo Núcleo de Preservação da Memória Política e pelo Memorial da Resistência de São Paulo, é um espaço de discussão entre militantes das causas libertárias, de ontem e de hoje, pesquisadores, estudantes e todos os interessados no debate sobre as lutas contra a repressão, em especial à resistência ao regime civil-militar implantado com o golpe de Estado de 1964.
Os "Sábados Resistentes" tem como objetivo maior o aprofundamento dos conceitos de liberdade, igualdade e democracia, fundamentais ao ser humano.
Memorial da Resistência de São Paulo
Largo General Osório, 66 – Luz – Auditório Vitae – 5º andar
11 de dezembro, das 14h às 17h30
Largo General Osório, 66 – Luz – Auditório Vitae – 5º andar
11 de dezembro, das 14h às 17h30
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Câmara de São Paulo homenageia Eduardo Collen Leite, o "Bacuri"
ENTREGA POS-MORTEM DA MEDALHA ANCHIETA COM GRATIDÃO DA POPULAÇÃO DE SÃO PAULO AO “BACURI”.
“Nosso comandante, mártir e herói chamava-se Eduardo Collen Leite e passou por um tormento de 106 dias seguidos de torturas atrozes nas mãos do Esquadrão da Morte e do DOI-CODI/São Paulo até ser assassinado em 7 de dezembro de 1970. Durante esse período não forneceu aos inimigos sequer seu nome ou seu endereço. Tentamos por todos os meios resgatá-lo das mãos dos criminosos, mas não conseguimos.Tentamos capturar o comandante do II Exército para trocar um por um, mas também não conseguimos. Nossas tentativas fracassaram por vários motivos, inclusive pela ação de infiltrados que nos sabotaram. Foi anunciada sua fuga quando da morte do comandante Toledo. Ele foi escondido num quartel no Guarujá. Ficou como refém do inimigo. Quando houve a captura do embaixador suiço, o tiraram do quartel de madrugada e o mataram covardemente".
Vamos homenagear esse grande brasileiro, que morreu jovem e serviu de exemplo para todos nós que lutamos contra a ditadura.
Local: Câmara dos vereadores de São Paulo
Data: 07 de dezembro
Horário: 19h
“Nosso comandante, mártir e herói chamava-se Eduardo Collen Leite e passou por um tormento de 106 dias seguidos de torturas atrozes nas mãos do Esquadrão da Morte e do DOI-CODI/São Paulo até ser assassinado em 7 de dezembro de 1970. Durante esse período não forneceu aos inimigos sequer seu nome ou seu endereço. Tentamos por todos os meios resgatá-lo das mãos dos criminosos, mas não conseguimos.Tentamos capturar o comandante do II Exército para trocar um por um, mas também não conseguimos. Nossas tentativas fracassaram por vários motivos, inclusive pela ação de infiltrados que nos sabotaram. Foi anunciada sua fuga quando da morte do comandante Toledo. Ele foi escondido num quartel no Guarujá. Ficou como refém do inimigo. Quando houve a captura do embaixador suiço, o tiraram do quartel de madrugada e o mataram covardemente".
Vamos homenagear esse grande brasileiro, que morreu jovem e serviu de exemplo para todos nós que lutamos contra a ditadura.
Local: Câmara dos vereadores de São Paulo
Data: 07 de dezembro
Horário: 19h
(Ivan Seixas - Fórum dos ex-presos políticos)
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
O que tem por trás de certas afirmações?
Sempre que o assunto é "crime organizado", visto o que está acontecendo no Rio de Janeiro de hoje e o que aconteceu em São Paulo no dia das mães de 2006, a mídia cria uma dinâmica do medo a partir de absurdos sociológicos como o de afirmar que o “crime organizado” atual surgiu do encontro entre presos comuns e presos políticos pela ditadura nos anos 70, tentando vincular militantes de esquerda a traficantes de drogas, e separar a população em esquemas tipos “eles-nós”.Porque essa necessidade em refletir a responsabilidade da existência do "crime organizado" aos presos políticos pela ditadura militar brasileira?
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Copa de 1970 e a máquina de propaganda do regime militar
Há quatro décadas a seleção brasileira conquistava o tri-campeonato de futebol mundial, no México. Sendo a primeira a almejar o título três vezes, desde que o campeonato fora estabelecido em 1930, tendo o direito de trazer para o solo brasileiro a taça Jules Rimet.A seleção brasileira de futebol de 1970 foi considerada por muitos a maior de todos os tempos. Ao arrematar em apoteose a taça, tomou para si o estigma de um feito heróico, num espetáculo transmitido pela primeira vez para o povo brasileiro através da televisão. Com forte cobertura na mídia de então, a vitória da seleção brasileira em 1970 foi usada como instrumento de propaganda do regime militar. Nunca o futebol seria tão bem explorado como propaganda de um governo no Brasil como o foi em 1970. A taça Jules Rimet foi erguida pelo próprio presidente de então, General Emílio Garrastazu Médici.
1970 foi um dos anos mais tensos da história do Brasil e do próprio regime militar implantado em 1964. No ano anterior as guerrilhas urbanas eclodiram pelo país, o sequestro do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick pela esquerda oposicionista, revelou ao mundo o que até então os militares negavam veementemente, a existência de tortura no país. O ano da copa começou com outro sequestro da esquerda, a do cônsul do Japão Nobuo Okuchi. Iniciava-se uma sangrenta caça aos guerrilheiros. A finalidade era caçar a todos e eliminar, numa condenação à revelia a uma pena de morte pré-determinada.
Momentos antes do início do campeonato, João Saldanha, técnico que classificara a seleção para a copa, foi afastado por motivos políticos, sendo substituído por Mario Jorge Lobo Zagallo. Feitas as arestas ideológicas, o Brasil entrou em campo, eliminando todos os adversários, numa atuação antológica de um elenco luxuoso, com Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Gérson, Carlos Alberto Torres e Clodoaldo.
Enquanto o povo delirava com os gols, a economia atingia o auge do que se chamou “Milagre Econômico”, mostrando um país "próspero e feliz". Nas celas os presos eram torturados, mortos e desaparecidos. Nas rádios o hino da copa ecoava para os noventa milhões de brasileiros: “Pra frente Brasil!”.
A máquina de propaganda do regime militar nunca foi tão bem-sucedida como naquele ano, tendo como elemento principal a vitória da seleção, e a imagem heróica dos seus jogadores. Comparado a história contemporânea, o uso da imagem da seleção brasileira do tri-campeonato só perdeu para a propaganda do regime nazista, nas Olimpíadas de Berlim, em 1936.
Escrito por Jeocaz Lee-Meddi
texto na íntegra no site:
http://jeocaz.wordpress.com/2010/06/07/copa-de-1970-e-a-ditadura-militar/
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Censura e Cinema no Brasil da ditadura
Quando em 1990 os arquivos da censura foram abertos, além do bafo amargo de um período de menosprezo as criações artísticas, a livre manifestação, a informação e principalmente aos sonhos e a vida, exalou também que a censura era muito bem estruturada e cumpria função estratégica no regime militar. Os censores eram preparados para interpretar mensagens políticas, participavam de cursos onde examinavam criteriosamente filmes de cineastas tidos como subversivos, como Godard, Truffaut, Pasolini e Antonioni, alguns até estudaram cinema em universidades para não deixar escapar nenhuma técnica velada que identificasse subversão.Antes do golpe de 1964 a censura já existia, mas limitava-se a classificar os filmes por faixa etária. Depois do golpe ela é moldada a servir aos interesses do regime com uma atuação moralista, cortando palavrões, cenas libidinosas, exposição do corpo. Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha, por exemplo, foi proibido para menores de 18 anos, mas não sofreu cortes, no parecer do censor não há qualquer alusão a mensagens políticas no filme.
De 1967 a 1968 ocorre a militarização da censura, que com o decreto AI-5 se torna totalmente ostensiva e implacável, com atuação de censores da alta patente, generais e coronéis com seus olhares totalmente fincados na preservação do estado repressor, onde qualquer manifestação contrária representava um atentado à segurança nacional. O AI-5 institui uma censura mais ferrenha nas artes, principalmente no cinema, cerceando a liberdade de expressão e criação artística dos cineastas. A proibição de filmes se torna prática comum.
Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha, foi proibido em todo território nacional por ser considerado subversivo e irreverente, a censora que o avaliou fez um relatório político e contundente onde destaca a frase que considera ameaça ao estado: A praça é do povo e o céu é do condor.
Macunaíma (1969), dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, baseado na obra de Mário de Andrade, também foi proibido, o censor identifica na roupa de uma personagem o símbolo da Aliança para o Progresso - organização voltada para a América Latina criada pelo presidente americano John Kennedy e contestada pelo regime militar - e manda apagar a cena.
Nesse universo de censores preparados para matar qualquer ideia que julgassem impertinente ao estado repressor que eles representavam, tudo era julgado e muita criação condenada. Em 1972, o cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão, foi assombrado não apenas com a proibição, mas com a explosão irada de sua censora que declarou em sua justificativa pela não liberação do filme À meia-noite encarnarei em teu cadáver: "Se não fugisse à minha alçada, seria o caso de sugerir a prisão do produtor pelo assassinato à Sétima Arte, pois não foi outra coisa que ele realizou ao rodar o presente filme".
Na abertura política iniciada em 1975, a censura toma novos rumos. Filmes que antes seriam esfacelados começam a ser liberados sem ou com poucos cortes para o cinema. O alvo passou a ser outro: a TV. Eles perceberam que o público do cinema era restrito e que o controle precisava ser feito sobre a televisão, que chegava a todos os lugares e a todas as pessoas. Um caso exemplar é o de Pixote, rodado em 1980, por Hector Babenco e só liberado para a TV cinco anos depois, com 38 cenas censuradas.
Como disse o crítico francês Georges Sadoul: “Façam seus filmes, como for possível. Não parem. Porque um dia isso vai passar, e nesse dia seus filmes estarão lá, para contar essa história”.
Vale lembrar que os cortes eram feitos nas cópias. Com os originais preservados, a partir de 1988, com o fim da censura, os filmes puderam ser exibidos em sua íntegra e desfrutarem da apreciação do público, que é quem tem por direito gostar ou não de uma criação artística.
El Justicero (1963), de Nelson Pereira dos Santos, é um caso raro de filme que teve até os negativos confiscados. Por anos, o cineasta deu El Justicero como perdido, até que soube que havia uma cópia em 16 mm na Itália, para onde tinha sido levada pelo cineasta David Neves.
A censura foi uma das mais poderosas armas de sustentação da ditadura militar brasileira. Competente e incisiva fez valer a vontade do regime militar. Calou, frustrou, destruiu impiedosamente caminhos almejados de muita gente e com isso controlou o público do que ele poderia ter ou não acesso.
"Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em um cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista. Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado. Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema".
Antonio Cícero
Antonio Cícero
Fontes: Leonor Souza Pinto e Denise Assis
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Depoimento de Zé Celso Martinez sobre sua passagem pelos porões da ditadura militar.
Entrevista concedida para TVUZYNA.
Imagens e edição de Cassandra Mello.
sábado, 13 de novembro de 2010
DAN MITRIONE, o mestre da tortura
Pouquíssimas pessoas sabem quem foi Dan Mitrione, homenageado com o nome de uma rua em Belo Horizonte no início dos anos 1970. A homenagem, sabe-se agora, fez parte de um plano para mascarar a biografia do torturador ítalo-americano que a ditadura militar trouxe, num convênio com a CIA, para ministrar aulas de tortura aos policiais brasileiros. E ele veio justamente para a capital mineira. Os espancamentos de presos políticos, que já eram a prática com os presos comuns (e continuam), passaram à condição de “método científico” com a chegada do “mestre”. As aulas não eram somente sobre a contradição entre corpo e espírito, entre fidelidade e resistência, entre caráter e covardia. As aulas eram práticas. Mendigos e presos comuns eram seviciados em salas de aulas para mostrar aos alunos os pontos mais vulneráveis do corpo, as técnicas mais eficientes, os instrumentos mais adequados, o limite depois do qual o risco de matar o preso era iminente.Estes tempos tristes estão sendo esquecidos e o hediondo crime de tortura, embora imprescritível e inafiançável, pode ser anistiado desde que o STF assim o entenda. As coligações políticas entre defensores da tortura (e até torturadores remanescentes) e antigos lutadores pela liberdade e pela justiça começam a ficar comuns para a conquista ou manutenção do poder. Esta volúpia pelo poder, que despreza a ética e os princípios, terá como primeira vítima a liberdade. Sempre foi assim em todas as autocracias. Quando nos esquecemos dos horrores da ditadura, quando eles vão ficando mais distantes no tempo é que o pêndulo começa a se movimentar na direção do autoritarismo. A experiência dos que sofreram é confundida com atraso em um mundo que caminha cada vez mais rapidamente em direção a uma “pós modernidade”, depois da qual pode restar apenas um planeta morto. Os que foram vítimas dos ensinamentos de Dan Mitrione, aqui e no Uruguai, sabem que liberdade (“essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda” Cecília Meireles) é mais importante que o consumismo, o resultado de bolsas de valores, a cotação de moedas estrangeiras, o humor do mercado.
Dan Mitrione foi ensinar tortura no Uruguai. Os Tupamaros o prenderam para trocá-lo por presos políticos da ditadura de lá. Ante a recusa dos militares uruguaios, foi justiçado. O nome de rua em Belo Horizonte foi a pedido dos americanos que queriam transformar o torturador em herói. Não conseguiram.
Em 1983, por iniciativa de Artur Viana e Helena Greco, vereadores na época, o nome da rua foi mudado para José Carlos Mata-Machado, jovem lutador pela liberdade, assassinado sob tortura (talvez com as técnicas ensinadas por Mitrione) nos porões da ditadura em Pernambuco. Era filho do inesquecível Prof. Edgar Mata-Machado. Belo Horizonte foi redimida e ficou mais limpa. A inauguração da nova placa foi uma festa. Eu estava lá. E não me esqueço.
Texto de Antônio de Faria Lopes, postado no site de Fernando Massote
http://massote.pro.br/2010/06/dan-mitrione-antonio-de-faria-lopes/
Fernando Massote iniciou os seus estudos de filosofia e política na Universidade Católica de Louvain (Bélgica) e os terminou, com o curso de doutorado, na Universidade de Urbino (Itália). É professor aposentado do Departamento de Ciência Política da UFMG e autor do livro “História pela Metade – Cenários de Política Contemporânea”.
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