Alguns Dispositivos na Produção do Esquecimento
1. História e Mídia
…o processo de estruturação da memória coletiva é um dos mais sensíveis às disputas e aos confrontos dos diferentes grupos sociais. Como já assinalamos, a "história oficial" tem selecionado e ordenado os fatos segundo alguns critérios e interesses construindo, assim, "zonas de sombras, silêncios, esquecimentos, repressões".
Todo e qualquer acontecimento que hoje não se faça presente nos mass-media não existiu, não aconteceu, está fora da memória histórica que está sendo registrada e guardada pelos diferentes equipamentos sociais. Não está sendo relegado somente ao esquecimento; o que é pior, passa a não existir.
"Toda propaganda deve ser tão popular e ter nível intelectual que até mesmo o mais ignorante daqueles para a qual ela é dirigida possa entendê-la. Pode-se fazer com que as pessoas percebam o paraíso como inferno e, no sentido oposto, que considerem a forma mais vil de vida como o paraíso". (palavras de Adolf Hitler)
2. As Mortes Por "Acidente"
Uma "outra" história que também tem sido contada, narrada e registrada refere-se às mortes dos opositores políticos. De um modo geral, as versões oficiais da ditadura militar brasileira para os assassinatos perpetrados diziam respeito às mortes por resistência à prisão, por atropelamento ou por suicídio. Assim, oficialmente todos os militantes políticos assassinados foram efetivamente mortos "acidentalmente". Para coroar esse processo de negação histórica, a ditadura contou com o apoio técnico de vários médicos legistas que respaldaram com seus laudos as versões oficiais da repressão. Nesses documentos oficiais as causa-mortis foram registradas como reação à prisão, atropelamento, ou suicídio, pois em nenhum momento foram descritas as marcas de torturas presentes nos corpos desses opositores políticos.
3. A Figura do Desaparecido Político
O desaparecimento de pessoas ocultação de seus restos mortais e circunstâncias em que se deram suas mortes tem se caracterizado por ser uma das mais perversas práticas de tortura sobre seus familiares e amigos, pois para a "história oficial" essas pessoas estão vivas e para as autoridades são "foragidas" da justiça. Ou seja, apesar de terem sido seqüestradas, torturadas e assassinadas pelos órgãos de repressão, as autoridades governamentais jamais assumiram suas prisões ou mortes oficialmente.
Em uma sociedade com desaparecidos, com práticas sistemáticas de extermínio e violação dos mais elementares direitos estão presentes não somente os danos causados diretamente aos atingidos e aos seus familiares. Também estão sendo produzidas cotidianamente práticas de conivência, cumplicidade, submissão, medo, omissão, autocensura e, principalmente, esquecimento.
Ao mesmo tempo em que institucionalizava a tortura e a figura do desaparecido político no Brasil e na América Latina, alastrava-se e naturalizava-se a categoria de "indigente" (No Brasil o termo "indigente" refere-se àqueles que, por não serem identificados e reclamados por suas famílias, são enterrados em covas rasas como "desconhecidos".) No Brasil, esta categoria passou a ser produzida não somente por meio dos órgãos de repressão política, mas também, pela atuação dos chamados Esquadrões da Morte. Estes, nos anos 50 e, principalmente, após o golpe militar de 64 e no início da década de 70, no Rio de Janeiro e em São Paulo, fortaleceram-se como instrumentos para "diminuir" os índices de criminalidade entre as populações marginalizadas das periferias das grandes cidades.
A produção da instituição "indigência" que, dentre outras coisas, tem massacrado a cidadania, retirando a identidade dos opositores políticos ou não, está comprovada pelos números de ossadas encontradas nas pesquisas realizadas por diferentes entidades de direitos humanos no Brasil.


